Passados quatro anos desde a deflagração da Operação Ptolomeu, quando viaturas da Polícia Federal ocuparam as rampas de acesso ao Palácio Rio Branco para combater o maior esquema de de desvio de recursos públicos da história política do Acre, o principal protagonista do processo, o governador Gladson Cameli (PP) pode, enfim, ser julgado. Isso se até a meia-noite desta terça, 16, nenhum dos recursos impetrados por sua milionária banca de advocacia for acatado pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF). A data para o julgamento está agendada para esta quarta-feira, 17 de dezembro. É a segunda tentativa de colocar Cameli no banco dos réus em menos de um mês.
Apesar de a cada oportunidade se apresentar como inocente e expor o desejo de ser julgado para provar sua possível inocência, Gladson de Lima Cameli não exita em protelar, sempre que possível, o seu encontro com a Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça (STJ), onde tramita o processo. Assim foi no mês passado, quando ele deveria ter sido julgado no dia 19. Porém, por decisão de Gilmar Mendes, o processo foi suspenso.
O processo está todo pronto para ser analisado pelos ministros do STJ. Após quatro anos de intensos trabalhos, a ministra relatora da Operação Ptolomeu, Nancy Andrighi, concluiu o seu voto. Todavia, a defesa do governador acreano usa de todos os recursos legais para protelar o julgamento.
Em novembro de 2023, a Procuradoria-Geral da República (PGR) denunciou o governador e outras doze pessoas pelos crimes de organização criminosa, corrupção nas modalidades ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro e fraude a licitação.
A Polícia Federal classificou o governador acreano como o suposto chefe de uma organização criminosa montada no coração do poder político local para desviar mais de R$ 800 milhões. As investigações da operação Ptolomeu foram iniciadas ainda em 2019, quando o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou “movimentações atípicas” nas contas bancárias do governador e de seus parentes – que também foram denunciados.
No período de um ano, já ocupando o Palácio Rio Branco, depósitos em dinheiro vivo numa das contas de Cameli superaram o total repassado pela empresa de seu pai, onde ele tem sociedade e alega vir a maior parte de seus rendimentos; Muitos dos valores eram depositados em quantias baixas numa tentativa de não chamar a atenção das autoridades.
Entenda o caso
Desde o fim de 2021, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Ptolomeu, os jornalistas Fábio Pontes e Leonildo Rosas vêm produzindo o mais consistente e aprofundado registro jornalístico já feito sobre o maior escândalo de corrupção da história política do Acre.
Amparados em um inquérito policial com mais de mil páginas, ambos mergulharam em relatórios, quebras de sigilo, laudos financeiros e despachos judiciais que colocam o governador Gladson de Lima Cameli (PP) no centro de um suposto esquema criminoso instalado no coração do Palácio Rio Branco.
Enquanto grande parte da imprensa local silenciava ou tratava o caso de forma superficial, Pontes — hoje editor-executivo do Jornal Varadouro — e Rosas — à época no Portal do Rosas — assumiram o risco de expor, passo a passo, o que a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República (PGR) investigavam. O resultado foi a série de reportagens batizada de “Esquemão Azul”, referência direta ao partido do governador e à engrenagem descrita pelos investigadores.

As reportagens revelaram que a investigação teve início ainda em 2019, a partir de alertas do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que identificou movimentações financeiras atípicas nas contas de Gladson Cameli, de familiares e de pessoas próximas ao governo. Segundo a PF, apenas em um ano, já no exercício do cargo, o governador movimentou quase R$ 1 milhão em dinheiro vivo, com depósitos fracionados — prática comum em esquemas de lavagem de dinheiro.
Pontes e Rosas também mostraram que, apenas seis meses após assumir o governo, Cameli abriu uma holding empresarial, utilizada posteriormente para a compra de um imóvel avaliado em cerca de R$ 5 milhões em São Paulo. Para a PF, a operação levantou fortes indícios de ocultação e dissimulação de patrimônio incompatível com a renda declarada.
Outro ponto central das reportagens foi a atuação de supostos operadores do esquema. Um dos nomes mais citados é o de Rudilei Estrela, apontado pela Polícia Federal como operador financeiro do governador, responsável por receber e redistribuir recursos repassados por empreiteiras beneficiadas por contratos públicos. Os textos detalham como empresas investigadas venceram licitações milionárias e, posteriormente, repassaram valores a intermediários ligados ao núcleo político do governo.
As investigações também alcançaram contratos firmados durante a pandemia da Covid-19. As reportagens indicaram compras superfaturadas e pagamentos suspeitos, inclusive com recursos internacionais do programa REM/KfW, voltado à preservação ambiental. A Controladoria-Geral da União (CGU) apontou que parte desses recursos foi parar nas mãos de empreiteiras sob investigação, contrariando regras de fiscalização federal.
De acordo com o que Pontes e Rosas publicaram, a Polícia Federal identificou manobras do governo estadual para dificultar a atuação de órgãos de controle e burlar mecanismos de fiscalização, reforçando a tese de que a organização criminosa operava de forma estruturada e contínua.
A deflagração da Operação Ptolomeu, em 16 de dezembro de 2021, marcou um divisor de águas. Mais de 300 agentes federais cumpriram mandados no Acre, no Amazonas e em Brasília. Pela primeira vez na história do estado, a PF entrou no Palácio Rio Branco para cumprir ordens judiciais. A casa do governador foi alvo de buscas, bens foram bloqueados e medidas cautelares, como a apreensão do passaporte, seguem em vigor até hoje.
As reportagens também acompanham o desdobramento judicial do caso. Em 2023, a PGR denunciou Gladson Cameli e outras 12 pessoas por organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro e fraude à licitação. O processo foi desmembrado, e uma das ações — envolvendo cerca de R$ 12 milhões em contratos — foi levada ao Superior Tribunal de Justiça, que aceitou o governador como réu.
Ao longo desses quase quatro anos, Pontes e Rosas registraram não apenas os fatos, mas também a estratégia da defesa do governador, marcada por sucessivos recursos e tentativas de adiar o julgamento. Em vídeos, artigos e análises, os jornalistas destacam que, até hoje, Gladson Cameli nega as acusações, mas nunca enfrentou o mérito das provas apresentadas pela Polícia Federal.
O conjunto desse trabalho consolidou a Operação Ptolomeu como um marco do jornalismo investigativo independente no Acre. Mais do que narrar um escândalo, as reportagens de Fábio Pontes e Leonildo Rosas escancararam as entranhas de um sistema de poder acusado de desviar centenas de milhões de reais e deixaram registrado, para a história, como o Acre viu a Polícia Federal ocupar o Palácio do Governo — uma mácula política que, como eles próprios escreveram, dificilmente será apagada.
Por: Redação Varadouro
Foto: Diego Gurgel/Secom/AC

